Paixão pelas lâminas

A paulistana Silvana Mouzinho, 47 anos, aquece no fogo um cilindro de aço da grossura de um cabo de vassoura e em seguida o golpeia com um martelo, repetindo essa operação horas a fio até achatá-lo e transformá-lo numa lâmina. Em seguida, gasta outro tanto de tempo lixando e polindo a peça. Na etapa final, ocupa-se com a colocação do cabo, esculpido em materiais como chifre de boi. Leva cerca de 3 ou 4 dias de trabalho com afinco para produzir uma faca de cerca de 20 centímetros. Há quem considere a atividade inadequada para mulheres, por exigir uma boa dose de força fisica. E realmente são poucas as que se dedicam à cutelaria, a arte da confecção de facas e outros objetos cortantes. Nas feiras e eventos nacionais do setor, Silvana só encontra outra companheira de ofício, Marina Farão, 37 anos, de Lençóis Paulista, interior de São Paulo. Foi ao ver as facas produzidas por Marina em uma dessas feiras, cinco anos atrás, que Silvana se animou com a profissão. "Tinham detalhes tão delicados que mais pareciam jóias. Percebi então que nesse mundo tão masculino também havia lugar para a mão feminina." Na época ela trabalhava como secretária na Old West, importadora de cutelaria fina. "No inicio, ficava chocada ao ver que tinha gente capaz de pagar, sem pestanejar, até 4 mil reais por uma faquinha." Convivendo com os colecionadores, porém, ela começou a se contagiar pela paixão que via cintilar em seus olhos. O empurrão que faltava para jogá-la de vez nesse mundo veio com a descoberta de que Peter Hammer, um dos maiores cuteleiros do Brasil, dava aulas. Num fim de semana, Silvana desembarcou em seu atelier, em Itaipava, disposta a voltar para São Paulo, com uma faca feita por ela. E conseguiu. No final de semana seguinte, retornou com a missão de fazer outra para o seu marido. Dai em diante não parou mais. Em 2002, lançou sua marca, a Silvana Art Knives, com uma série de peças feitas em parceria com Hammer. "O fato de ser mulher despertou o interesse dos colecionadores e ajudou a me firmar no mercado", conta. Empolgada, montou a oficina em casa, onde se propõe a moldar em aço o sonho de seus clientes, trabalhando sob encomenda. "Logo pretendo prestar exame de graduação na Sociedade de Cuteleiros Artesanais dos Estados Unidos. Essa certificação funciona como um selo de qualidade", garante.

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